Final Fantasy é arte?

 Este artigo foi originalmente escrito por mim para o site www.finalfantasy.com.br

A Arte contemporânea vive uma fase de muitos questionamentos, tais como: “o que é arte?” “Isto, ou aquilo pode ser considerado arte?” “Quais são os critérios para saber se algo é realmente arte?” “Existem tais critérios?” “Se tudo é arte, então nada é arte”. Com o surgimento de novas técnicas ao longo dos anos, essas questões parecem ficar ainda mais difíceis de serem respondidas. Com o crescimento dos computadores, e avanço da tecnologia, vivemos hoje na era digital, com câmeras digitais, fotos digitais, som digital, imagem digital. Programas como Photoshop podem fazer milagres com uma fotografia, alterando-a sem que ao menos seja percebido pelos olhos do povo. E junto com o avanço da tecnologia, das televisões, das maquinas fotográficas, filmadoras, veio também o avanço dos videogames.

Quando surgiram, com seus gráficos quadrados e quase nenhuma cor, aquilo não passava de entretenimento, diversão, brinquedo para crianças. Conforme os anos foram passando e as gerações de videogame foram evoluindo, personagens, cenários e mundos foram tomando forma. As músicas que agora compunham as trilhas sonoras dos jogos, não eram mais um monte de ruído que chegava a dor os ouvidos. O jogo Final Fantasy I lançado para o vídeo game de 8 bits da Nintendo, conhecido como NES, em 87, já trazia algumas melhorias em relação aos antigos gráficos quadrados de 2 ou 3 cores. No entanto, o som ainda era ruim, o jogo ainda tinha uma cara totalmente infantil. Afinal, quem se interessaria por um bando de heróis salvando o mundo? No entanto, pequenas coisas começavam a surgir. A história inovadora chamou atenção de muitos, e a trilha sonora feita pelo compositor (ainda que em um som de baixa qualidade devido às limitações do vídeo game) Nobuo Uematsu, começaram a chamar atenção, e Final Fantasy I, como todos sabem, foi um sucesso de vendas, no Japão e na América do Norte.

Os jogos desde então não pararam de evoluir, e Final Fantasy sempre esteve a frente de muitos outros RPGs eletrônicos em questões como enredo, gráficos, trilha sonora. A era dos 16bits com o novo vídeo game da Nintendo, SNES, trouxe algo que muitos fãs da série consideram o melhor, o famoso Final Fantasy VI chegava em 1994. Gráficos ainda melhores dos que suas versões anteriores. Mas a grande questão dessa vez, além da maravilhosa trilha de Nobuo Uematsu, era o enredo, os personagens. Cada personagem tem sua própria historia, e ao longo do jogo, você é capaz de perceber o amadurecimento de cada um deles. Além disso, temas como genocídio, solidão, moral, suicídio, e esperança frente a um mundo quase sem nenhuma, eram partes da trama principal. A inconfundível arte de Yoshitaka Amano como “character design” contribuiu para personagens memoráveis. Mesmo já trabalhando em outros episódios anteriores, muitos acreditam que o melhor trabalho de Amano para a série esteja em FFVI. No entanto, os mesmo com temas fortes, personagens profundos, os videogames estariam fadados a mero brinquedo pra crianças por muitos anos.

Os videogames entraram na era de 32bits.E, depois do sucesso de Final Fantasy VI, as produções de cada jogo da série foram cada vez mais cinematográficas. Em Final Fantasy VII e Final Fantasy VIII o “character design” não era mais Yoshitaka Amano, o trabalho agora estava nas mãos de Tetsuya Nomura. Nomura já havia trabalhado anteriormente em FF, mas agora ele assumia o controle total. Logo, sua arte arrecadaria milhares de fãs, assim como Amano. Mas a tecnologia dos jogos e videogames não parou nos 32bits. Nos dias de hoje Nomura trabalha no mais novo jogo da saga Final Fantasy, juntamente com Amano, que provavelmente ficará encarregado das ilustrações promocionais.

Mas os videogames seriam realmente arte? Arte digital é considerada arte? O criador de um dos mais famosos jogos de espionagem (Metal Gear Solid), Hideo Kojima, afirmou certa vez que o que eles fazem não é arte. O que é mais interessante, é que para a produção de Metal Gear Solid 4, Hideo Kojima e toda a sua equipe estavam fazendo um treinamento com equipe das forças armadas, tudo para dar o maior realismo do jogo e conseguir o maior conhecimento técnico possível sobre espionagem, armas, e artes de guerrilha. Não se pode negar que o conhecimento de Kojima nessa área seja vasto, mas se ele diz que não é arte, então arte para ele não seria apenas técnica. Mas afinal o que faz arte uma arte hoje em dia?

Marx responderia que graças ao capitalismo, toda arte se tornou um mero produto, e que acima de tudo ela tem que vender. Então a arte estaria morta, uma vez submetida ao capitalismo não haveria mais a pura arte. A liberdade de criação seria uma condição necessária para que o artista possa criar? Tais liberdades seriam inexistentes em nosso sistema capitalista, uma vez que ele visa o consumo apenas, e a produção? De fato a arte engajada teria sido capaz de matar a arte? Quando vemos coisas absurdas em exposições artísticas como roda de bicicleta, ou uma privada, pensamos: isso é arte? Se isso é considerado arte, se o que é arte hoje é o novo, o diferente, e o que choca, então tudo está valendo. E a partir desse principio, ao mesmo tempo nada vale então.

O cinema é considerado uma arte, existe a famosa premiação do Oscar que todos conhecemos, assim como festival de Cannes, Globo de Ouro, e tantas outras. Mas para os jogos também existem tantas ou mais premiações. Enquanto cinema trabalha com atores de carne e osso, os jogos trabalham com personagens que não passam de dados de computadores, no entanto, o personagem do artista não passa de um papel também. Alguns filmes chegam a três horas, ou raras vezes mais, um jogo como Final Fantasy nos prende por no mínimo 40 horas, podendo ultrapassar 100 horas, ou mesmo 200 dependendo do jogo, com uma infinidade de diálogos, personagens, situações, lugares, tudo criado pela mente humana, um novo mundo, outro mundo, tão ou mais real que o nosso. Mas se os jogos são infinitamente maiores que os filmes, com histórias às vezes maiores que livros, então certamente eles são arte? Mas os jogos são feitos para vender, assim como os filmes, isso não seria uma arte engajada, e morta?

Um produtor de jogo só consegue criar algo com total liberdade depois de um grande sucesso na maioria das vezes, antes disso ele está submetido às regras da empresa para a qual ele trabalha. Mas ao meu ver isso não atrapalha o verdadeiro artista. Nobuo Uematsu quando compôs as músicas de cada Final Fantasy talvez estivesse sendo pago, mas ninguém chegou para ele e disse “é essa música que queremos” afinal, o trabalho dele é exatamente criar, e para isso ele tem que estar em completa harmonia com a história do jogo, personagens, cenários, estar por dentro de todo o contexto, para decidir os sons certos. Talvez ele tenha que ser “obrigado” a criar uma música pra um cenário especifico, mas ele teve a liberdade pra criar qual a melhor música para aquela situação e aquele cenário. E como todos sabemos, Nobuo Uematsu já viajou o mundo todo fazendo shows em orquestras com os temas de Final Fantasy, e também vencedores de vários prêmios. Yoshitaka Amano, ilustrador e “character design” de Final Fantasy é ganhador de muitos prêmios Europeus, e também Japoneses. Seguidamente acontecem exposições de suas obras. Já trabalhou em quadrinhos norte americanos (Sandman), desenhos para a televisão, e também criação de cenários para teatros. Amano é um dos artistas que já possui a “liberdade” para desenhar o que quiser, mesmo sendo contratado.

O que faz da arte uma arte então? Se a arte é algo para ser vendida então não é a arte? Mas e a intenção do artista? É inegável o conhecimento técnico dessas pessoas, é notável a influência da arte psicodélica em Amano, e se a intenção dele é desenhar para vender, isso faz com que os desenhos deles não sejam mais “bons”? Os tais critérios para que uma coisa seja considerada arte existe, ou é uma coisa totalmente subjetiva? Depende do gosto de cada pessoa? É somente o conhecimento técnico? É a inovação? O chocante? É a criatividade?

Se a arte é então subjetiva dependendo do gosto de cada um, David Hume já diria que existe um “padrão de gosto”. Você não pode dizer que não gosta de videogame se não joga, não pode dizer que tal filme é ruim ou bom se não tem costume de ir ao cinema. Somente através do contato direto e constante com a arte você seria capaz de refinar o seu gosto, apurar a sensibilidade. O bom gosto e o mau gosto existem, e somente com discussões (sim, gosto se discute), comparações, e com contato com aquela arte você seria capaz de desenvolver um gosto, e uma sensibilidade mais apurada, segundo Hume. Mas aqui eu questiono quanto às comparações. Se uma arte é completa em si mesma, então ela é passível de comparações, uma vez que ela termina em si mesma, não é possível compará-la.

Volto a falar da intenção de artista, mesmo o filme americano mais horrível que você possa encontrar seria possível fazer comparação? E se a intenção do artista é para que ele seja assim, agrade a um determinado público, venda, e pronto? Sendo assim, os objetivos dele estariam cumpridos, e se a arte dele cumpre seu papel, e cinema é arte, então ela é perfeita em si mesma, não importando o filme. Ou não? Há realmente filmes ruins e bons? E jogos bons e ruins?

O que diria um jogador de Final Fantasy e um de GTA? De um lado, enredo profundo, personagens complexos, um mundo totalmente criado do nada, com seus próprios problemas, economia e política, de um outro, um jogo com um personagem saindo pelas cidades, matando pessoas, atirando e destruindo coisas, e ainda tem de brinde um minigame de sexo. Mas e se intenção do criador do GTA era essa? Era criar um jogo com um público alvo como os adolescentes, comunidades e proporcionar uma diversão sem pé nem cabeça? Então um jogo assim também é arte?
Ou esquecendo tudo isso a arte deveria preocupar-se com a sociedade, com o social, com a verdade? Jogos como Final Fantasy X mostram claramente uma certa crítica a igreja, a falsa moral entre outras coisas. Personagens como Wakka seguem os ensinamentos fielmente de sua religião, mas no fim, percebe que sua “igreja” não é tão santa assim. E não é raro abrir o jornal e ver casos de padres no motel com adolescentes e jovens. Essa seria a verdadeira arte? A que se preocupa com o social, faz criticas ao sistema e mostra a verdade? Então a arte seria como para Hegel, uma função de verdade, e Adorno, com uma preocupação social.

Penso que o padrão de gosto do Hume pode até mesmo existir, somente com refinamento vamos aprimorando os nossos gostos. Quem nunca gostou de uma coisa que hoje se envergonha, olha pra trás e diz: como eu pude gostar disso? Por que deixamos de gostar? Por que mudamos, e por que nosso gosto muda e se refina com nós. A arte pode estar “morta” segundo muitos pensadores, por causa do capitalismo, toda a arte tem que ser um produto. O próprio Marcelo Cassaro na revista Dragon Slayer número 4, em sua matéria sobre como construir um material e mostrá-lo pra editora, diz que antes mesmo do seu produto ser arte, ele tem que vender. Creio que quem é realmente bom não se compromete. Você pode criar uma coisa que seja para vender, mas isso não necessariamente quer dizer que seu trabalho seja ruim, a arte não se compromete com o capitalismo no instante em que a mente por trás do trabalho seja geniosa. Tomo como exemplo Final Fantasy, como eu disse em outra matéria, quem já chorou vendo algum filme? E quem já chorou vendo a morte da personagem Aerith em Final Fantasy VII? Personagens profundos, enredo bem trabalhado, e uma temática que não sai de moda: a proteção do planeta e o meio ambiente. Arte seria atemporal? Não necessariamente, mas há coisas que ficam para sempre. Ninguém nega a técnica de Leonardo da Vinci em Mona Lisa, ela é atemporal, mas creio que não pertence à história de quase ninguém hoje em dia. Final Fantasy VII tem quase 10 anos de existência, gráficos ultrapassados, mas uma legião de fãs que até hoje amam o jogo. Atemporal? Também. O jogo até mesmo já virou filme.

Akira Toriyama, criador de muitas histórias em quadrinhos, dentre elas “Dragon Ball” (publicado pela editora Conrad), disse em seu livro “Mangaká”(lançado pela editora Conrad no Brasil) que “uma história acima de tudo deve descrever o ser humano”. Faço dele minhas palavras, não importa o roteiro, roteiros sem personagens não são nada. Um livro com personagens mal elaborados, logo caem no esquecimento. Por que tantos escritores ganham prêmios e concurso com histórias contemporâneas, como: internet, drogas, entre outros problemas sociais atuais, e logo caem no esquecimento? Está certo, tema atual, e importantes, mas e daí? Amanhã acaba a internet e o que você faz com um livro que tem uma trama baseada nisso? Simplesmente esquece uma história como essa, uma vez que o tema não existe. Mas e quando temos na história complexos de identidade de Cloud em Final Fantasy VII? A indiferença de Squall em Final Fantasy VIII? As trapalhadas de Zidane, e seu ar galanteador em Final Fantasy IX? Pessoas se sacrificando pelo bem de todos, como Yuna em Final Fantasy X? Existe uma frase que o escritor Ruben Alves disse uma vez a respeito de mitos, quando sua filha lhe perguntou se aquelas histórias haviam acontecido alguma vez, ele disse algo como: essas histórias que não aconteceram, acontecem sempre. Essa seria a chave para sucessos como Peter Pan, Alice no País das Maravilhas, e claro, Final Fantasy.

As histórias de cada jogo da série nunca aconteceram, mas estão sempre acontecendo. Quem nunca passou por um problema semelhante à de um personagem do jogo? Quem não se identifica com pelo menos um? Ou ao menos se irrita com as burrices do personagem que lhe faz lembrar um amigo ou alguém que você conhece. As histórias de Final Fantasy estão sempre acontecendo, é isso que faz dele um jogo tão bom, mas não apenas um jogo, um lugar onde um grupo de artistas, juntos criam uma nova realidade, às vezes tão perfeita que pode superar a realidade, um mundo onde muitos gostariam de morar. Os critérios para que um jogo de videogame seja considerado arte? Quem sou eu para dizer? Mas penso que se você considera um filme de Pedro Almodóvar, ou qualquer outro filme obra de arte, então, Final Fantasy também tem seu espaço no meio artístico, personagens, historias maiores que um filme, e talvez, muito mais marcantes. Cada jogo tem um fim em si mesmo, o que ao meu ver, faz com que sejam passiveis de comparações. O que não necessariamente signifique que cada jogo, ou cada filme seja perfeito em si mesmo. O artista verdadeiro, não compromete seu trabalho apenas por que precisa vender, mas sim, concilia as duas coisas. É nesse ponto que encontramos os verdadeiros artistas, capazes de criar, e mostrar seu trabalho sem comprometê-lo.O artista não pode comprometer sua técnica, sua criatividade e genialidade, essas coisas não devem se submeter ao capitalismo. Se a intenção do artista é simplesmente agradar, e ele conseguiu, mas para isso comprometeu toda sua criatividade, sua técnica, penso que não seria arte. O meio termo, a harmonia entre as duas coisas deve existir. Talvez os tais critérios que tanto buscamos não existam, mas a arte digital, o videogame, já conseguiu seu espaço dentro das maiores obras de arte do mundo.


8 Respostas para “Final Fantasy é arte?”

  1. andreia Disse:

    eu amei o filme final fantasy e o melhor filme que eu já vi, os personagens são lindos como a gange do kadaj e ele,cloud.tifa,e achei legal a quele bichinho que tem foco no rabo dele.

  2. VCB Disse:

    Acho que a arte é final fantasy já… pra quem acompanha o jogo aprecia detalhes e curiosidades fora de série… melhor RPG de todos os tempos…

  3. fabio bonny Disse:

    Quando se tem profissionais de respeito e com muito amor no q fasem são criados, filmes, jogos, seriados,com qualidade maxima em todos quesitos.E FINAL FANTASY é uma prova disso.ACHO q só a mesma equipe da esquare enix poderá superar esse grande sucesso.ANCIEDADE á minha, para trabalharem em mais um progeto como esse, chamado “FINAL FANTASY AD CH”.UM PROJETO CINEMATOGRAFICO DESSE, NÒS TRÀS ESPERANÇA HÀ FILMES DE QUALIDADE ,TÂO CARENTES COMO OS DE HOJE!

  4. bruna Disse:

    eu amei mto o filme fional fantasy por sua historia ser facinante e romantica,e seus personagens mto fofs e demonstram mto sentimento…

  5. val Disse:

    eu entrei em varios lugar a traz desse filme final fantasya e eu estou louca para telo que eu vi no yutube mas preciso de enformação se e desenho ou filme ou game e como faço para conseguilo
    so filme ou desenho game não muito obrigada

  6. tamiris Disse:

    oq ele vai ser no futuru

  7. Gustavo Disse:

    Como é o nome do filme de final fantasy q passou na globo pra mim baixar????????/

  8. Sebastião Disse:

    É claro que é arte

    Só a historia do começo do jogo la na criação de Final Fantasy I ja é roteiro de cinema.

    E depois disso ele vem se superando a cada jogo novo.

    Resultado: é arte concerteza!

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